QUANDO DOIS SAPIENTES DESTES ASSIM FALAM…

19 05 2008

O ranço Salazarista  (por Batista Bastos)

 

Cada vez mais nos afastamos uns dos outros. Trespassamo-nos sem nos ver. Caminhamos nas ruas com a apática indiferença de sequer sabermos quem somos. Nem interessados estamos em o saber. Os dias deixaram de ser a aventura do imprevisto e a magia do improviso para se transformarem na amarga rotina do viver português e do existir em Portugal.

 

Deixámos cair a cultura da revolta. Não falamos de nós. Enredamo-nos na futilidade das coisas inúteis, como se fossem o atordoamento ou o sedativo das nossas dores. E as nossas dores não são, apenas, d’alma: são, também, dores físicas.

 

Lemos os jornais e não acreditamos. Lemos, é como quem diz – os que lêem. As televisões são a vergonha do pensamento. Os comentadores tocam pela mesma pauta e sopram a mesma música. Há longos anos que a análise dos nossos problemas está entregue a pessoas que não suscitam inquietação em quem os ouve. Uma anestesia geral parece ter sido adicionada ao corpo da nação.

 

Um amigo meu, professor em Lille, envia-me um email. Há muitos anos, deixou Portugal. Esteve, agora, por aqui. Lança-me um apelo veemente e dorido: ‘Que se passa com a nossa terra? Parece um país morto. A garra portuguesa foi aparada ou cortada por uma clique, espalhada por todos os sectores da vida nacional e que de tudo tomou conta. Indignem-se em massa, como dizia o Soares.’

 

Nunca é de mais repetir o drama que se abateu sobre a maioria. Enquanto dois milhões de miúdos vivem na miséria, os bancos obtiveram lucros de 7,9 milhões por dia. Há qualquer coisa de podre e de inquietantemente injusto nestes números. Dir-se-á que não há relação de causa e efeito. Há, claro que há. Qualquer economista sério encontrará associações entre os abismos da pobreza e da fome e os cumes ostensivos das riquezas adquiridas muitas vezes não se sabe como.

 

Prepara-se (preparam os ‘socialistas modernos’ de Sócrates) a privatização de quase tudo, especialmente da saúde, o mais rendível. E o primeiro-ministro, naquela despudorada ‘entrevista’ à SIC, declama que está a defender o SNS! O desemprego atinge picos elevadíssimos. Sócrates diz exactamente o contrário. A mentira constitui, hoje, um desporto particularmente requintado. É impossível ver qualquer membro deste Governo sem ser assaltado por uma repugnância visceral. O carácter desta gente é inexistente. Nenhum deles vai aos jornais, às Televisões e às Rádios falar verdade, contar a evidência. E a evidência é a fome, a miséria, a tristeza do nosso amargo viver; os nossos velhos a morrerem nos jardins, com reformas de não chegam para comer quanto mais para adquirir remédios; os nossos jovens a tentar a sorte no estrangeiro, ou a desafiar a morte nas drogas; a iliteracia, a ignorância, o túnel negro sem fim.

 

Diz-se que, nas próximas eleições, este agrupamento voltará a ganhar. Diz-se que a alternativa é pior. Diz-se que estamos desgraçados. Diz um general que recebe pressões constantes para encabeçar um movimento de indignação. Diz-se que, um dia destes, rebenta uma explosão social com imprevisíveis consequências. Diz a SEDES, com alguns anos de atraso, como, aliás, é seu timbre, que a crise é muito má. Diz-se, diz-se.

 

Bem gostaríamos de saber o que dizem Mário Soares, António Arnaut, Manuel Alegre, Ana Gomes, Ferro Rodrigues (não sei quem mais, porque socialistas, socialistas, poucos há) acerca deste descalabro. Não é só dizer: é fazer, é agir. O facto, meramente circunstancial, de este PS ter conquistado a maioria absoluta não legitima as atrocidades governamentais, que sobem em escalada. O paliativo da substituição do sinistro Correia de Campos pela dr.ª Ana Jorge não passa de isso mesmo: paliativo. Apenas para toldar os olhos de quem ainda deseja ver, porque há outros que não vêem porque não querem.

 

A aceitação acrítica das decisões governamentais está coligada com a cumplicidade. Quando Vieira da Silva expõe um ar compungido, perante os relatórios internacionais sobre a miséria portuguesa, alguém lhe devia dizer para ter vergonha. Não se resolve este magno problema com a distribuição de umas migalhas, que possuem sempre o aspecto da caridadezinha fascista. Um socialista a sério jamais procedia daquele modo. E há soluções adequadas. O acréscimo do desemprego está na base deste atroz retrocesso.

 

Vivemos num país que já nada tem a ver com o País de Abril. Aliás, penso, seriamente, que pouco tem a ver com a democracia. O quero, posso e mando de José Sócrates, o estilo hirto e autoritário, moldado em Cavaco, significa que nem tudo foi extirpado do que de pior existe nos políticos portugueses. Há um ranço salazarista nesta gente. E, com a passagem dos dias, cada vez mais se me acentua a ideia de que a saída só reside na cultura da revolta.

 

Baptista Bastos

b.bastos@netcabo.pt

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16 responses

19 05 2008
sara rosa

paulo já tinha lido os dois artigos,impressionaram-me bastante mas escolhi um que me tocou mais ,o do batista bastos,além das verdades que diz gostei da elegancia da escrita e os olhos e sentidos bem atentos ao que se está a passar em portugal,eu noutro dia soube isto,um senhor acessor não sei de que ministro,deitou fora o telemovel e exigiu um novo para condizer com o carro que lhe tinham dado,é só uma pontinha do véu,mas realmente nós portugueses temos um defeito,fala-se demais e não se tomam outras atitudes,o voto,por exemplo.

19 05 2008
Luis Neto

Tirou-me algumas palavras da boca.
Mas há muito mais a ser dito:
Sobre os Portugueses de Portugal que se apagaram e recolheram debaixo das rochas para não serem pisados;
Sobre a sociedade da exigência gulosa;
Da educação que só é exigida ao professor;
Dos pais exonerados das suas funções por não saberem o que são;
Do consumo inebriante da tecnologia imposta;
Dos olhos cegos do povo ausente e entorpecido por vozes que distorcem a realiade;
Do País que suporta a canga de milhares de politiqueiros, seus agentes e conselheiros;
Da voracidade e despudor das promoções por mérito e das sem mérito;
Da insegurança de viver!

19 05 2008
António Ferreira

Paulo Carvalho

Ao teu comentário e a estes dois notáveis, que mais há para comentar? Subscrevo-os inteiramente. Está tudo lá!!!
O povo, embriagado pelos Euros (o de 2004 de que estamos a pagar a factura e agora, a ver vamos, o 2008) e a classe dita média com as Lux, Caras e quejandas tem o que merece, mau grado estejam, também outros, a pagá-las.

19 05 2008
Eduardo

Dá que pensar e reflectir, alguma responsabilidade terá que ser imputada a quem nos governa. Mas será porventura razoavel pensar que este é o modelo de politica que interessa aos Portugueses? 33 anos de liberdade, 33 anos que alguns aproveitaram para se governarem, não vale a pena eu dizer mais nada, o resultado está à vista de todos, até os novos paises que aderiram à Comunidade Europeia se preparam para nos darem o pisca da esquerda(desculpem a expressão)…

Vamos calmamente esperando que a desgraça bata à porta de cada um de nós. O nosso povo caminha a passos largos para o abismo. As diferenças são a cada dia que passa mais notórias, parabéns à coragem que alguns senhores têm por darem a cara através da comunicação social alertando aos mais distraidos que nada disto acontece por acaso, lamento que o nosso orgulho de ser Português se vá desvanecendo…

19 05 2008
Paulo Figueiredo

Quase tudo o que os dois ditos “sapientes” dizem está certo. Por outro lado fico horrorizado com a miopia de quererem atribuir todos estes defeitos a uma pessoa, Salazar, que está morta e enterrada. Parece ser uma desculpabilização fácil e repetida à exaustão, de que tudo o que é mau se atribuir ao salazarismo e a Salazar, e esquecer que muitos dos ditos democratas e quejandos, são os culpados da triste situação a que chegamos. O sistema da partidocracia de Portugal está moribundo e não se pode esperar que sejam os partidocratas, sejam eles de que partido forem, repito, de que partido forem, a corrigir a situação, pois foram eles mesmos que o criaram. Inventem qualquer outro sistema e parem de viver na idade média do pensamento que os faz atribuir a culpa de tudo o que se passa a um homem que poderia ter muitos defeitos, mas pelo menos não enriqueceu à custa do povo com falsas teorias de democracia.

19 05 2008
pjrcarvalho70

Caro Paulo Figueiredo:
Gostei do seu comentário, pois concordo que as constantes analogias à figura de salazar esgotam-se na diferença que refere: por muito mal que esse senhor tenha feito ao país (e fez) tinha pela menos essa virtude: era genuino e, sobretudo, apesar de ser mau para todos, julgava convictamente que era bom PARA TODOS!

Cumps

19 05 2008
Estêvão Lopes

Estes 2 Homens que viveram Abril, já com uma certa idade, estão conscientes do caminho que esta sociedade está a tomar.
Infelizmente a maioria das pessoas e as próprias instituições, entre as quais as que se dizem defensoras das classes trabalhadoras, estão caducas, adormecidas, distraídas com pequenos nadas.
Temos governantes que são simples marionetas do grande capital, eleições dominadas pelo folclore e pela mentira, pessoas sem consciência do caminho que o mundo está a trilhar. Como é possível que o desenvolvimento tecnológico seja aproveitado por tão poucos? Como é possível que a riqueza esteja tão mal distribuída?
Afinal para que serve o poder político, senão para evitar estas injustiças!
Um poder executivo que não cumpre a sua função apenas pode ser contestado até ao seu final.
Necessita-se de uma nova revolução e uma nova era!

19 05 2008
Maria Dinis Machado

Temos uma figura maior no nosso panorama governativo que, em vez de andar a fazer vénias na Madeira de Jardim, deveria de uma vez por todas pôr um ponto final neste desgoverno que vemos instalado em Portugal.
O despudor com que querem, podem e fazem – contrariando até as leis que eles mesmos insistem em impôr – é de já não suportar mais!
Mas não…o descalabro é grande nas mais diversas áreas – na educação, na saúde, na justiça ( que brada aos Céus!), nas forças de segurança pública e no seu abandono total à sua ( e nossa ) sorte, no infame acordo ortográfico , na inflação dos bens alimentares, na desvergonha do aumento dos combustíveis…e, sobretudo , na falta de expectativas deste povo!
E que vemos ser feito por quem ainda podia?
Nada…sempre a mesma lengalenga de que ” não pode intervir”, ” não tem funções para interferir”, ” não é o momento adequado”…
A rainha de Inglaterra tem um papel bem menos decorativo que este!
Será possível que, quem sempre se gabou de nunca se enganar e raramente ter dúvidas, considerar ainda que está a agir a bem deste povo e deste país?
Quem mais pode afirmar . com credibilidade que…” o rei vai nu”?

20 05 2008
Duarte Rocha

Sr. Manuel Alegre e Sr. Baptista Bastos, não se limitem a identificar o que qualquer cidadão atento e minimamente inteligente já identificou, AJUDEM-NOS, SALVEM-NOS, ACUDAM-NOS…
FORMEM PARTIDOS, MOVIMENTOS, ASSOCIAÇÕES etc. mas façam qualquer coisa POR FAVOR, CHEGA DE LINGUADO PASSEMOS ÀS MÃOS.

Duarte Rocha

21 05 2008
eb1jimuro

Que dizer mais?! Sublinhar que quem nos governa se diz socialista?!!!!!!! Repetir à saciedade a estupefacção com tal socialismo?!!! carpir amargamente o voto entregue ao pinóquio nas últimas eleições?!!!!…
Como quer que seja, não esquecer, sobretudo, que a resposta tem que ser data em 2009. E tem que ser uma resposta individual, pois com certeza, mas também uma resposta em convergência com outros. Há mais espaço político para além deste que os Pê Esses ocupam e que o PSD promete dispinibilizar. Esse espaço fica mais à esquerda e pode ser alargado e consolidar-se em alternativa válida com interlocutores indispensáveis para a governação, na próxima legislatura.

21 05 2008
vera c. s. castanheira nunes

Voltamos ao mesmo continuamente, Paulo. Como já se cantou e alguns de nós sabem ( há os adormecidos e os defensores da mediocridade e da podridão) ” e assim se faz Portugal, uns vão bem, outros bem mal”. Mas pelo menos ainda se ouvem vozes lúcidas. Mas quantos mais haverá ? E quantos das novas gerações, defendendo as ideias de Manuel Alegre e Baptista Bastos se fazem ouvir, se deixam ouvir ?… Ou têm poder para se fazerem ouvir ou querem mesmo ser ouvidos ?
Lembro-me do Padre António Vieira e do Sermão de Sto António aos peixes, dos peixes pegadores, que se agarram ao tubarão; e quando o tubarão é pescado, eles vão a eles agarrados…Não sei porque me estou sempre a lembrar disto, quando penso nos nossos governantes e não só ,Porque será ?!…
um abraço

22 05 2008
Pinto

Bom comentário, e aqui são ditas umas coisas com sentido. Mais do que comentários revolucionários e palavras feitas pela forma, é mesmo necessário uma revolução séria a esta geração J.

Mais do que estes polítocos, esta forma de fazer política não serve aos portugueses, ou pelo menos apenas serve a alguns (poucos) portugueses que controlam este sistema de ditadura disfarçada. Quando se veêm pessoas a serem promovidas com ordenados milionários e vantagens sem fim e outras a forçarem a morte por via da pobreza, algo está mesmo muito mal.

Conseguimos chegar a uma altura em que todos eles (polítcos) – mesmo aqueles anti-sistema e que tanto lutaram pela democracia – se deixaram adormecer pelo sossego de quem “mais vale estar calado do que ser calado”. Esta inoperância e passividade do povo, mas principalmente dos eleitos pelo povo que não concordam com este sistema de gestão está a colocar-nos em diracção a abismo.

22 05 2008
Ivo Sampaio

…e assim fico extremamente satisfeito por constatar que a revolta que sinto, e que tantas vezes transmito aqueles que me são mais próximos, tem nestes dois tão ilustres cidadões «parecer mais que credível».
Subscrevo tudo o que dizem, e pf, vocês que são figuras mediáticas, e consequentemente vozes autorizadas a fazê-lo, não parem de mostrar nos meios que possuam, e todos não serão demais, estes atentados à nossa própria dignidade. Obrigado.

24 05 2008
José Ribas

Fico contente por achar que …pois ja estava a ficar desconfiado de sofreria alguma doença bipolar (que está muito na moda!), isto porque não sendo de nenhum partido dava por mim a dizer “cassetes”de coisas aos meus amigos e colegas sobre este estado do país.Parece que afinal é verdade,afinal tudo o que conseguimos após estes 34 anos de “democracia” foi mais do mesmo… ou pior! Porque umas das “vantagens da democracia”é a de podermos gritar contra os nossos mais dignitários políticos e afins ,para depois podermos ficar roucos e cansados e de braços caídos e semblante negro no regresso ,sem vontade e sem confiança …sem força.
Conseguiram tirar-nos mais do que a liberdade!
Conseguiram tirar-nos a raiva
Conseguiram tirar-nos a força
Conseguiram tirar-nos a vontade
Conseguiram tirar-nos a vontade de ser Português
Um dia ainda vou voar ….mesmo sem asas!

14 06 2008
maria josé alves covita leitao santos

sinceramente estou já tão farta de tudo que começo a pensar que com o silencio vamos lá. a culpa é sempre dos professores , temos costas largas mas sabem agora estou numa de não ler livros daquele comentador da tvi que diz bem de nos. vai uma filmagem quero lá saber euro meu não dá para comprar livros dele. e se quiser ler vou aFNAC sento-me leio vejo a página onde fico e assim não gasto.o fulano diz mal dos 100 000 da manif mas se os livros dele deixarem de sair quero ver. e depois inventa ainda alguns do plano nacional da leitura. vamos mas é ler SOPHIA que essa sim ,agora o resto ….olhem desabafos desilusão onde iremos parar mas adoro esta profissão.

27 09 2008
Leonor

Batista Bastos descreve na perfeição o sentimento que começa a fervilhar no coração dos Portugueses. Parece que ainda está tudo incrédulo. Não é possível, dizem aqueles que pensam que o 25 de Abril foi o triunfo da liberdade. Ainda estamos incrédulos porque tudo se passa sob a capa de um socialismo que parece estar a perder significado. Sim, a ideia de socialismo, por si só é mítica. Encerra os ideiais de liberdade, humanismo, tolerância, justiça…enfim, encerra a utopia que pensámos ter realizado em 25 de Abril de1974.
Penso que é por isso que estamos todos ainda meio adormecidos e anestesiados ,mas não creio que por muito tempo.
Em surdina, sim, digo em surdina, porque há já medo em falar, começam a ecoar desabafos de revolta. Acho que é só mesmo o rastilho pegar e não tardará teremos outro maio de 68, outro 25 de Abril, mas provavelmente com outros contornos, talvez menos pacíficos.
A revolta está a instalar-se e o ranço começa a dar náuseas.
Aguardemos.
Isto vai mudar, ai vai, vai.

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