COITADINHOS DE NÓS

5 03 2008

Aqui transcrevo o testemunho de uma professora portuguesa a trabalhar num país decente, para que as pessoas leiam e percebam de uma vez por todas que os professores portugueses têm mais do que razões para se indignarem com esta onda de ataques e agressões à sua classe pelo Governo de Portugal.

« De : Maria Teresa Duarte Soares – teresa. duartesoares@ t-online.de
       AlemanhaData: 26.02.08

Caríssimas colegas
Caríssimos colegas

Antes de mais, os meus mais sinceros parabéns pela organizacão do
vosso movimento. Já há bastante tempo que temia ver os professores em
Portugal e os professores portugueses no estrangeiro perto de cair num
marasmo inoperacional relativamente às prepotências,
injustiças,ilegalidades, indecências, etc,etc,etc, do nosso Ministério
da Educação. Estou satisfeitíssima por ver que tal não é verdade, pelo
menos no que respeita aos docentes em Portugal.
Os professores portugueses no estrangeiro encontram-se, a meu ver,
ainda num estado de inacção que me custa compreender, apesar de desde
1998 terem sidpenalizados de todos os modos possíveis pelo ME, a
título de uma falaciosa e irreal “poupança.l

Sou, desde 1982, professora de Língua e Cultura Portuguesas no
Estrangeiro, e pertenço ao QND da Escola B 2,3 Mestre Domingos Saraiva
no Algueirão.
Tenho sido sempre activa sindicalmente,encontrando-me no momento na
Direcção do SPCL (Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas).

Conheço bem os sistemas de ensino da Alemanha e da Suíça, os dois
países em que trabalhei longos anos.

Por isso, envio-vos aqui várias informações sobre os docentes e o
ensino nos dois países, informações estas que poderão usar do modo que
vos for mais útil, e onde poderão ver que os professores mais
explorados da Europa, são, sem sombra de dúvida, os docentes
portugueses.


Alemanha
Avaliação dos docentes:
Têm, de 6 em 6 anos, uma aula ( 45 minutos) assistida pelo chefe da
Direcção escolar. Essa assistência tem como objectivo a subida de
escalão.

Depois de atingido o topo da carreira, acabaram-se as assistências e
não existe mais nenhuma avaliação.

Não existe nada semelhante ao nosso professor titular. Sempre gostava
de saber onde foi o ME buscar tal ideia. Existem, claro, quadros de
escola.

Não existe diferença entre horas lectivas e não lectivas. Os horários
completos variam entre 25 e 28 horas semanais.

As reuniões para efeito de avaliação dos alunos  têm lugar durante o
tempo de funcionamento escolar normal,nunca durante o período de
férias. Sempre achei um pouco preverso os meninos irem de férias e os
professores ficarem a fazer reuniões…

Tanto na Alemanha como na Suíça, França e Luxemburgo, durante os
períodos de férias as escolas encontram-se encerradas! Encerradas para
todos, alunos, pais, professores e pessoal de Secretaria! Os alunos e
os professores têm exactamente o mesmo tempo de férias. Não existe
essa dicotomia idiota entre interrupções lectivas, férias, etc.

As escolas não são centros de recreio nem servem para “guardar” os
alunos enquanto os pais estão a trabalhar.

Nas escolas de Ensino Primário as aulas vão das 8.00 às  13 ou 14 horas.
Nos outros níveis começam às 8 .00 ou 8.30 e terminam às 16.00 ou, a
partir do 10° ano,às 17.00.

Total de dias de férias por ano lectivo : cerca de 80 ( pode haver
ligeiras diferenças de estado para estado)

Alunos
Claro que existem problemas de disciplina. Mas é inaudito os alunos ,
ou os pais dos mesmos, agredirem os professores. A agressão física de
um professor por um aluno  pode levar à expulsão do último.

Os trabalhos de casa existem e são para serem feitos. Absolutamente
inconcebível que um encarregado de educação declare que o seu
filho/filha não tem nada que fazer trabalhos de casa, como acontece,
ao que sei, em Portugal.

É terminantemente proibido os alunos terem os telemóveis ligados e
utilizarem-nos durante as aulas. As penas para tal são primeiro aviso
aos pais, depois confiscação do telemóvel e por fim multa.

Suíça
Tal como na Alemanha, os professores só são assistidos durante o
período de formação e para subida de escalão.

Durante os períodos de férias as escolas encontram-se, como na
Alemanha, encerradas.

Os horários escolares são semelhantes aos da Alemanha. Até ao 4° ano
de escolaridade, inclusive, não há aulas de tarde às quartas-feiras,
terminam cerca das 11.30.
No início das aulas os alunos cumprimentam o professor apertando-lhe a
mão e despedem-se do mesmo modo. Claro que não há 28 ou 30 alunos numa
classe, mas no máximo 22.

O telemóvel tem de estar desligado durante as aulas.
É dada grande importância aos trabalhos de casa. A não apresentação
dos mesmos implica descida de nota final.

Total de dias de férias : cerca de 72 ( pode haver diferenças de
cantão para cantão)   .

Vencimentos
Só uma pequena comparação … na Suíça um professor do pré- primário no
topo da carreira recebe 5.200 francos mensais líquidos ( cerca de
3.400 euros),mais ou menos o dobro do que vence um professor em
Portugal no topo da carreira…..

Caras / Caros colegas:
Espero não ter abusado da vossa paciência com a minha exposição.
Porém, acho que ficou claro que, se o ensino em Portugal se encontra
em péssimo estado, a culpa não é dos professores, mas sim de um ME vendido aos
empresários, que tem como objective actual a quase extinção da escola
pública, para que a mesma produza analfabetos funcionais, que
trabalharão sem caixa médica e sem subsídio de férias , porque nem
sabem o que isso é, e se souberem, não poderão reclamar porque não
saberão escrever uma carta em termos…. Isto para não mencionar as
massas que se entregarão à criminalidade, prostituição, etc.

Um grande abraço para todas /todos da colega

Teresa Soares »

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3 responses

17 10 2008
Rita Gaspar

Deixe-me desde já dar-lhe os mais sinceros parabéns pelo blog e pelo seu autor, que me parece um cidadão com a plena noção de direitos e deveres. Também por esta razão não posso deixar de comentar esta carta. Antes de mais informo que sou psicóloga e não tenho qualquer ligação à Escola nem ao estatuto de professor, apenas conto com o meu senso comum. Não sei como vai a realidade deste país no que concerne à profissão em questão. Pessoalmente gostava de ter um emprego em que o meu desempenho fosse avaliado somente de 6 em 6 anos com a garantia que ia subir de escalão, ou mesmo sem qualquer avaliação; gostava de receber cerca de 3000 euros a trabalhar uma média semanal de 5,6 horas e ter direito a 72 dias de férias (se interpretei mal a informação por favor corrijam-me). É verdade que gostava mesmo! Mas também é verdade que não me importo assim tanto de trabalhar 8 horas por dia, 40 horas por semana, ter 30 dias de férias por ano, ser avaliada mensalmente e receber um salário de 900 euros a recibos verdes, como me acontece. Se calhar sou palerma! Se calhar estou em Portugal! Mas também talvez a professora Teresa tenha escolhido um termo de comparação que não se adequa minimamente à realidade do nosso país, quer se seja professor, quer não. Certamente é por estar em Portugal, pois eu só concebo um emprego neste país nos moldes explicados pela professora da seguinte forma: ganhar muito e não fazer nada! Sra. Teresa, nem 8 nem 80! Todos o queríamos! Pois com certeza, pois somos todos portugueses!

21 10 2008
Nuno

Penso que de facto a questão dos salários, não é para aqui chamada…porque se fizermos uma comparação, com o nosso salário mínimo nacional…até acho que os professores, não são mal pagos, em relação aos restantes trabalhadores dos sectores de actividade privados. Recentemente estagiou na empresa onde trabalho, uma pessoa licenciada em design, que já tinha leccionado, passados 12 meses, tentou novamente a sua sorte a dar aulas, pois as condições salariais, etc. e a exigência, não tinham a mínima comparação.

A título de exemplo, um pedreiro na Suíça também pode auferir um salário de 3.400, 00 €.

Em termos de educação, estamos mal, e nesse aspecto concordo com os professores. Agora estando os professores, tão preocupados com o estado da educação e tendo em conta que o problema não e de agora, eu questiono, o porquê de nunca ter visto uma manifestação de 100 mil professores em defesa do ensino. Foi preciso “mexerem” nas “vossas” regalias, para os portugueses saberem, que não estão contentes com o estado da educação em Portugal?

21 10 2008
pjrcarvalho70

Então não é que concordo consigo, caro Nuno!

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